10 de janeiro de 2016

           
                 Seção: Na Bola de Cristal 

Histórias baseadas em fatos reais para sua reflexão


A história do cãozinho Bob



         Minha mãe e eu sempre tivemos muitas afinidades espirituais. Ela era uma grande amiga e estávamos sempre juntas. Quando se mudou para São Lourenço, Minas Gerais eu sempre passava as férias em sua casa. Morava num sobrado muito bonito na ladeira de uma rua que dava para o Parque das Águas. Meu filho mais velho tinha apenas três anos e adorava passar as férias na casa da avó.

      Minha mãe morava com um senhor espanhol que acreditava na espiritualidade. Eu gostava muito daquela casa. Apreciava ficar no terraço admirando a serra . Todas as manhãs, passava a charrete do leiteiro. Muitas casas de São Lourenço possuíam amplos terraços. Meu padrasto plantava tomate e alho. O inverno era rigoroso e , à noite, ficávamos perto da lareira da sala para nos aquecer.

    Havia na cozinha um nostálgico fogão de lenha onde minha mãe gostava de preparar o café. O mel e o queijo faziam parte do nosso café da manhã. A casa tinha um aroma natural. Lembrava uma fazenda. Era espaçosa e muito clara. E, Minas Gerais , sempre foi um lugar encantado e repleto de boas vibrações.

    Meu padrasto, Sr. Antonio, tinha um cão mestiço de pequinês chamado Bob. Ele havia aparecido naquela casa fazia algum tempo.Tinha um pelo macio e marrom.Sua respiração era ofegante, mas o olhar vivo e dócil. Minha mãe gostava muito do cãozinho. Quando meu padrasto chegava da lida, Bob o seguia subindo as escadas com ele e fazendo festa. Antonio pegava um saco de bolachas e o cãozinho ficava em pé esperando .Queria agradar para receber seu petisco. Gostava muito de rosquinhas doces.Bob era um cão livre e amistoso. Fazia seus passeios pela rua, mas sempre voltava. Eu gostava de ver o alegre cãozinho subir as escadas correndo para esperar pelas rosquinhas doces.
Alguns animais são especiais pela sua inteligência e doçura.

   Uma tarde, Antonio chegou da lida e subiu as escadas. Minha mãe e eu conversávamos na cozinha. O meu padrasto olhou em volta e não viu o Bob. Ele o chamou insistentemente através de um assovio, mas o cãozinho não apareceu. Minha mãe deu um longo suspiro. Estranhou a falta do Bob e muitas dias se passaram. Bob não voltou para casa.
Uma noite, Antonio convidou minha mãe para ir a um centro de Umbanda em Caxambu. Havia um grande médium que recebia um preto velho muito famoso chamado de Pai Café. Eu adorei o convite porque, naquela época, já gostava de assuntos místicos e terreiros de umbanda. Meu padrasto queria saber informações sobre o paradeiro de Bob. Nós estávamos sentindo muita falta do cãozinho.

   O terreiro era um lugar simples com um altar muito bem preparado. Estava lotado de pessoas. Vários médiuns vestidos de roupa branca giravam ao som dos atabaques. Meu padrasto entrou e cumprimentou o dono e médium principal do terreiro: Sr. Joaquim.Ficamos em prece. O médium era um senhor claro e baixo. Aparentava ter uns sessenta anos. Antes de incorporar olhava para um quadro de Iemanjá que estava pendurado na parede próxima à porta principal do terreiro. Dava a impressão que estava vendo espíritos ou tendo alguma intuição. A incorporação veio espontânea e Pai Café cumprimentou a todos. O preto velho falava com aqueles trejeitos próprios do preto velho: linguagem simples, expressão humilde.Eu me sentei no banquinho para conversar com o pai velho. Fiquei admirada com as coisas que ele falou sobre minha vida. Ele jamais tinha me visto. Meu padrasto conversou com ele logo depois. O preto velho soltou uma baforada do seu cachimbo e fitou Antonio com seu olhar bondoso. Pai Café afirmou categórico:

- Seu Antonio, o cãozinho Bob está vivo e se encontra perambulando por aí.- deu um sorriso irônico. Peço que acenda uma vela para o Negrinho do Pastoreio e espere por três dias. - o rosto do meu padrasto se iluminou com a possibilidade de rever o cãozinho.

Voltamos de madrugada para casa e eu fiquei muito impressionada com a mediunidade daquele senhor. Pessoas doentes, perturbadas, com problemas financeiros, mulheres sofridas procuravam o Pai Café. Todas se sentavam no toquinho para desabafar sobre suas dores e sofrimentos.
Senhor Joaquim morreu há alguns anos e até agora nunca mais vi um preto velho tão espiritualizado e intuitivo como o Pai Café.

Meu padrasto acendeu a vela para o Negrinho do Pastoreio. Três dias depois, quando Antonio lanchava na cozinha ,escutou os latidos do Bob. O fiel cãozinho subiu correndo as escadas do sobrado. O rosto do meu padrasto se iluminou. Abriu o saco de bolachas enquanto e Bob se aproximou. Estava sujo , mas com boa saúde. Meu padrasto lhe deu uma bolachinha e afirmou:

- Bob, não faça mais isso! Obrigado, Pai Café!- agradeceu o homem.

 Bob envelheceu ao lado do seu dono e agora mora no plano espiritual.

Sandra
Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade das pessoas.




    Os bons espíritos podem nos ajudar a encontrar pessoas desaparecidas, objetos ou animais? Se o Negrinho do Pastoreio se trata de uma lenda do folclore brasileiro quem ajudou o Sr. Antonio a encontrar o cão Bob? Os bons espíritos nos ajudam bastante.
No caso do cão Bob, a percepção do preto velho ajudou bastante. Ele pressentiu que o animal estava vivo devido aos seus dons de intuição e clarividência, muito comuns em alguns guias espirituais.

   Com o objetivo de fortalecer a fé do Sr. Antonio pediu que ele acendesse uma vela para o Negrinho do Pastoreio. Mas quem pode afirmar com certeza de que o Negrinho do Pastoreio é apenas uma lenda? Ninguém sabe.
Pai Café também pode ter facilitado o encontro do cãozinho espiritualmente. Em espírito ajudou o cãozinho e, provavelmente, o intuiu para que voltasse para casa.


Sandra

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